quarta-feira, 3 de abril de 2013

DESESCOLARIZAÇÃO

E começou uma dura jornada que se arrastou por um longo tragicômico ano.
- Filha, está na hora de fazer suas tarefinhas. Hoje você aprendeu sobre as famílias de letras, então o que podemos formar tendo o "D" e o "A"?
Silêncio.
Claro que não arrefeci. Um pouco frustrada com o desinteresse, arremeti novamente.
-Então? D com A, como é que fica? D... Com... A... O que é que faz?
Naquele momento, a pobre criança fitou meus olhos com um sorriso faceiro e cruel e disse:

- ELEFANTE!!!

"Puxa, acho que nunca ouvi um ELEFANTE tão grande. Quase dava para ver o bicho. Seu enorme pé quase esmagou o meu e sua respiração forte arrepiou todos os meus cabelos. Este, com certeza, não é um erro normal. Uma simples troca de letras. E não devia ser tratado como tal. Era quase um grito, um alerta de que havia um desencaixe invisível. Algo que fugia a minha percepção. Mas, mesmo sendo atropelada pelo inesperado paquiderme, ignorei os verdadeiros sinais.


Não podia desistir assim de minhas obrigações materno-pedagógicas, por isso, insisti na empreitada de fazê-la enxergar a "luz da escrita". A esta primeira, seguiram-se várias outras tentativas de formar o "DA". Mas para que, se o elefante era tão mais incrível? Todas, naquele dia, foram absolutamente inúteis.

Os dias corriam, e a cada tarefa de casa ficava imaginando qual bicho sairia de lá. Acabou, na verdade, por não aparecer mais nenhum, mas, a cada tentativa frustrada, o bendito do elefante passava por perto, algumas vezes longe, mas sempre o suficiente para zombar de meus esforços.

Engraçado??

É, parece. Mas a obsessão da instituição em alfabetizar uma criança de cinco anos pareceu de alguma forma não trouxe boas consequências.
Com o  passar do tempo minha filha começou apresentar um grande estresse emocional, e aos cinco anos sentia-se incompetente por não conseguir fazer contas de subtração.

Depois de tanta insistência não recompensada, tive de admitir que, talvez, o método e principalmente o tempo etário para realizar o proposto não estivessem adequados. Resolvi, então, abrir mão das tarefas que pareciam inúteis, senão prejudiciais para o próprio desenvolvimento dela e mudei minha pequena de escola.
Afinal de contas sua maior preocupação aos 5 anos de idade deveria ser mesmo o tal do ELEFANTE e todos os outros seres de sua imaginação e todas as brincadeiras e peraltices que pudessem lhe proporcionar uma infância de criança de verdade. E não havia nada de errado com isso.
Terminamos o ano com a DEFORMATURA com direito à anel, beca e muitas crianças se coçando devido ao incômodo daquela roupa estranha. E um adeus grande e alegre despediu-se de nós e nos guiou para uma educação que sonhamos.